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» "Os dilemas da representação e o papel do Parlamento nas democracias contemporâneas."
2ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 16ª LEGISLATURA, EM 11/2/2010
Palavras do Deputado Lafayette de Andrada
Esclarecimentos sobre os Debates
O Sr. Presidente - Neste momento, daremos início à fase de debates. A Presidência informa ao Plenário que os participantes poderão formular perguntas aos expositores, por escrito ou oralmente, mediante inscrição prévia. Para que possamos agilizar o debate, solicitamos aos participantes que desejarem fazer uso do microfone que se identifiquem, sejam objetivos e sucintos, dispensando-se as formalidades das saudações pessoais. Cada participante disporá de 3 minutos para fazer sua intervenção, sendo garantido o mesmo tempo para as respostas. Informamos que esta reunião será reprisada pela TV Assembleia em 21/2/2010, às 9 horas. A ata desta reunião, contendo a transcrição completa das exposições e dos debates, será publicada no “Diário do Legislativo” do dia 24/2/2010.
Debates
O Sr. Presidente - Vêm à Mesa duas indagações. A primeira, dirigida ao Prof. Cícero Romão, é feita por Antônio Calhau: “Os Parlamentos europeus e norte-americanos têm forte vocação fiscalizadora, o que não acontece no Brasil. Como inverter esse papel no contexto político brasileiro?”.
A outra pergunta é dirigida a todos os palestrantes: “Há como vislumbrar alguma solução para a crise da representação? Qual seria?”. Com a palavra, o Sr. Cícero Romão Resende de Araújo. O Sr. Cícero Romão Resende de Araújo - Geralmente tenho uma dificuldade de reagir de pronto a perguntas como esta, que é bastante complexa, mas, naquela polarização que reconstruí aqui, parece-me que a função fiscalizadora está mais próxima da ideia da representação perante o poder, para, entre outras coisas, controlar o exercício da representação do poder. Como falei para vocês, mais que qualquer outro instituto de representação nas democracias contemporâneas, o Parlamento encarna essa tensão, porque, se é verdade que tem a ver com a ação fiscalizadora perante o poder, ele tem de exercer o poder também, na medida em que é Poder Legislativo. Eu até diria que, para estabilizar sua função controladora e fiscalizadora, ele precisa ter algum poder constitucional. Não sei se necessariamente o poder legislativo, mas ele precisa ter um poder constitucional, pois precisa de um poder de contenção dos outros Poderes. É verdade que, na sua fase heroica, quando enfrentava o antigo regime ou os regimes autoritários modernos, como o regime militar brasileiro, o Parlamento não tinha poder de fato, mas foi legitimando-se, à medida que foi aproximando-se da sociedade, que já não queria aquele tipo de poder autoritário. Ele teve que se aproximar da sociedade para ganhar efetivo poder de contenção dos outros Poderes. Para deixar de ser poder subalterno e estabilizar sua função fiscalizadora, por exemplo, ele teve que assimilar para dentro de si um poder constitucional. O Poder Legislativo, por exemplo, não deixa de ser uma maneira de conter, de dar poder de barganha à instituição. Talvez isso ocorra até porque a experiência dos Parlamentos europeus é anterior ao Estado Democrático Moderno - e me refiro particularmente ao Parlamento britânico, que se esmerou muito nessa função controladora. Mas esses Parlamentos na Europa estão sofrendo questionamentos muito fortes quanto à sua atuação. Basta lembrarmos os problemas recentes que ocorreram no Parlamento britânico, talvez bem menores que os que tiveram lugar no Parlamento brasileiro, por exemplo, mas ocorreu um questionamento muito forte da opinião pública em relação à atuação do Parlamento britânico.
E aí vem um problema que me parece inescapável. Quando também se acumula a representação do poder, a função de governabilidade, surge a seguinte questão: o Poder que comanda, que é controlador e fiscalizador, tem de controlar não só o outro Poder, mas a si próprio. Como um Poder que precipuamente condensa a função fiscalizadora pode, tudo bem, fiscalizar o outro Poder, mas fiscalizar a si próprio, na medida em que tem uma função de exercício do poder, de governabilidade? Parece que entramos numa espécie de círculo vicioso sobre quem controla o controlador, na medida em que o controlador exerce também a representação do poder. Parece-me que esse não é um problema que está escapando aos Parlamentos europeus, embora seja menos intenso do que os da América Latina, do Brasil. Sobre a questão de como inverter as nossas experiências, não saberia responder qual a forma de superação dessa situação. Dentro do que mencionei na minha exposição, pode ser essa tradição de enorme resiliência da instituição histórica dos Parlamentos, essa capacidade que eu chamaria de instinto de sobrevivência dos Parlamentos como instituições que sobreviveram às transformações políticas profundas ao longo do século. Parece-me que na história dessa sobrevivência existe uma história de capacidade de renovar suas elites internas. A cada transformação que o governo representativo sofre e o governo sobrevive, ele sobrevive com a capacidade de fazer uma espécie de purgação e de transformação das suas elites. Quando, por exemplo, da passagem do voto censitário para o sufrágio universal, há uma mudança do tipo de elite que predomina no Parlamento. Há uma mudança profunda, uma mudança quase que revolucionária na composição social desse instituto. O instituto sobrevive, mas ele é capaz de mudar sua elite. Uma das maneiras pelas quais ele muda a sua elite é mudando as regras de composição da representação. Não é a única. Uma coisa interessante a respeito dos estudos de mudanças de elite dos Parlamentos é que, de fato, as mudanças de regras de composição acabam tendo uma repercussão na composição do tipo de elite que preenche as cadeiras do Parlamento. Isso é uma coisa impressionante. E é por isso que não é fácil mudar as regras de composição de um Parlamento, porque as mudanças das regras de composição afetam diretamente quem está exercendo a atividade de representação. É muito difícil imaginar que quem se beneficia de uma regra de composição queira, espontaneamente, mudar a regra de composição, à medida que percebe que a mudança de regra de composição não afeta simplesmente as regras, ela tem um efeito na composição concreta da instituição. Estou colocando um problema lógico a que eu não saberia responder na prática. Mas o fato é que nas experiências históricas dos Parlamentos, os Parlamentos souberam, em razão de mudanças da opinião pública, de pressão da opinião pública, de pressão da sociedade civil e de uma série de mudanças da cultura política, sobrevier a essas transformações. É isso. O Sr. Presidente - Agradecemos ao Sr. Cícero as palavras. Passo a pergunta do Sr. Antônio Carlos Magalhães, sem endereço, ao Sr. Paulo Kramer: “Vislumbra-se algum caminho para a solução da crise da representação? Qual seria?”.
O Sr. Paulo Roberto da Costa Kramer - Prezado ACM, costumo dizer que realidade é coisa para gente grande. Uma das características do pensamento mágico infantil é achar, como diziam nossas mães e avós, que todos os proveitos cabem em um só saco. Como mostrou o grande filósofo político Isaiah Berlin, uma das minhas admirações, quando você absolutiza a liberdade, a igualdade é prejudicada, a liberdade absoluta é a liberdade de os lobos devorarem os cordeiros. Por outro lado, se você absolutizar a igualdade, você matará a liberdade, e haverá nivelamento por baixo e fraca capacidade de renovação, de melhora social.
Da mesma forma, nenhum povo está satisfeito com o seu sistema político. Quem vive sob o regime do voto majoritário, distrital puro, diz que ele prejudica a representação porque não permite ou cria grande dificuldade para o surgimento do terceiro e do quarto partidos. Quem vive o regime proporcional reclama que ele leva à fragmentação e torna difícil o processo decisório, mais coerente, porque, ao privilegiar a representação, compromete a governabilidade, e vice-versa. Acho que não há uma solução definitiva. A característica fundamental da condição humana são as limitações. Ai de quem perde a noção dos limites! De repente, no auge da popularidade, tem-se um “peripaco”, a pressão sobe. Como alertam alguns filósofos... Vocês se lembram do que havia ao lado da biga de um imperador romano, quando desfilava em triunfo? Havia um escravo encarregado de dizer: “Lembra-te de que és mortal”. A característica humana são as limitações. Então, não há solução definitiva nem total para nada. Acho que há tentativas de se fazer remendo. Gostei muito da formulação do Cícero a respeito da “resilience”, da durabilidade do Parlamento. Se o grande parlamentar e filósofo irlandês de nascimento - britânico, enfim - Edmund Burke, pai do conservadorismo moderno, estivesse vivo, atribuiria alta nota ao Parlamento. Burke era conservador, mas não era reacionário. Não queria fazer voltar o relógio da história. Achava que passar uma borracha em tudo e planejar ou replanejar a cidade como se fosse o plano piloto de Brasília também não dá certo. Quer dizer, essas tentativas de engenharia social acabam em genocídio, como a Alemanha de Hitler, a Rússia de Stalin, o Camboja de Pol Pot, a Cuba de Castro. São mudanças adaptativas, parciais. As instituições que triunfam, que passam pelo tempo, conseguem fazer adaptações. Por isso não devemos achar que dá para jogar no lixo o acúmulo de experiências, tanto negativas quanto positivas, como a dos Parlamentos ocidentais ou de modelo ocidental.
Atreveria a sugerir três remendos. No caso brasileiro, para nãodizer da crise em abstrato, mas da crise de representação no Brasil, até que ponto ela existe, a primeira coisa é mudar o regime eleitoral - outra missão impossível. Vamos para o voto distrital puro, como em vários momentos no Império. Por quê? Porque acorrenta o representante ao representado. O sujeito tem de ficar lá o tempo todo prestando conta, dá a impressão de serviço, porque senão ele está fora. Em segundo lugar, há essas tentativas de partir para experiências participativas que reforcem, não superem, antagonizem a função representativa do Parlamento, como exemplificou a Profa. Cláudia Feres; as audiências públicas, as tentativas de orçamento participativo, sabendo também que não é uma solução total para nada. Democracia mesmo, em última análise para mim, não é na Assembleia, onde, às vezes, certos grupos mais preparados ganham no grito. O teste final da democracia é ali no escondidinho da cabine eleitoral, em que realmente se diz o que se pensa e se vota em quem se quer ou até não se vota, se não se quiser. Enfim, a solução é mesclar essas experiências participativas.
Finalmente, acho que isso remete a uma outra questão discutida aqui, que é a função fiscalizadora dos Parlamentos, reforçar essa função fiscalizadora. Isso passa por uma valorização do corpo técnico de assessores e consultores legislativos. Falei aqui do problema da estatização do cabo eleitoral por via da contratação de assessores de livre provimento, que é um grupo que não para de crescer. Não é a isso que estou me referindo, mas a um corpo técnico. Há vários formatos. Nos Parlamentos brasileiro e francês há o preenchimento desse corpo técnico por via de concurso público; no caso americano, há um sistema misto. No Congresso americano há os assessores pessoais obviamente, mas existem os assessores técnicos das comissões, tanto os dos democratas quanto os dos republicanos, Maioria e Minoria. Há, também, “think thank” do Congresso americano, o Congressional Research Service - CRS. Produzem maravilhas de estudos sobre todas as políticas públicas nacionais e externas em relação às quais o Parlamento americano tem de se posicionar. Diferentemente do Parlamento brasileiro e de outros, o Parlamento americano concentra muito poder; é a instituição mais poderosa. Se pensarmos bem, o que sobra, ao fim e ao cabo, para o Presidente americano é a capacidade de inspirar e exortar, como já disse um autor de ciências políticas, exercer a presidência retórica, a “rhetorical presidency”. Se estiver contra o Parlamento ou se achar que ele está muito hesitante em tomar alguma medida do interesse do Executivo, este passa por cima das cabeças dos Parlamentares e se dirige diretamente à população.Isso se torna cada vez mais fácil com os meios de comunicação. O Executivo tem sempre essa vantagem, porque sempre tem um rosto, é uma pessoa, é alguém; o Parlamento, ao contrário, é uma instituição sem rosto e colegiada. Essa história de passar por cima do Parlamento lá nos Estados Unidos dá certo em função do ”checks and balances” e de uma tradição democrática baseada nisso. Não é chavismo o que estou propondo aqui, obviamente. Como diria Jonathan Swift, essa foi a minha modesta proposta para melhorar os problemas decorrentes da crise da representação, sabendo que não há uma solução definitiva, final para nada nesta vida. Obrigado. O Sr. Presidente - Agradecemos as palavras do Prof. Paulo Kramer. Pergunta da Sra. Cláudia Sampaio dirigida à Prof. Cláudia Feres: “Considera-se que a saída para o Parlamento hoje reside na sua capacidade de sinergia com as outras formas de representação. De que forma ele pode se reinventar como representação na realidade do sistema partidário?”. Com a palavra, a Profa. Cláudia Feres. A Sra. Cláudia Feres Faria - Em primeiro lugar, os partidos não estão em contraposição, assim como o voto individual lá na urna eletrônica, a essa visão um pouco mais ampla da representação apoiada em vários autores, que aqui estou sugerindo como forma de sair desse conceito minimalista de representação e ampliá-lo. Isso já vem sendo feito, faz mais parte da realidade do que, na verdade, é considerado. Então, não vejo nem organização de grupos de interesse nem organização da sociedade em termos partidários como algo contraditório a essa pluralização de formas de representação. É preciso tomar cuidado para não tornarmos isso algo dicotômico; o grande desafio que faz parte das inovações e de sua análise é ver como podemos coadunar essas diferentes formas. Compartilho com o Prof. Paulo Kramer, em relação à exposição do Prof. Cícero, a ideia de que o Parlamento já vem fazendo isso, ou seja, considero uma boa perspectiva essa capacidade de se renovar, de se abrir, de olhar para si mesmo, como está sendo feito aqui agora.
O Sr. Presidente - Acaba de chegar aqui uma pergunta da Fádua dirigida ao Prof. Paulo Kramer, aos 46 minutos do segundo tempo: “Sabemos que os parlamentares recebem diariamente várias demandas de seus representados. Muitos delas são vistas como clientelistas. Como o senhor avalia essas demandas? São legítimas? A classificação de clientelista é preconceituosa?”. Com a palavra, o Prof. Paulo Kramer.
O Sr. Paulo Roberto da Costa Kramer - Muito obrigado pela pergunta. Em se falando de preconceito, muitas pessoas que trabalham nessa atividade de articulação ou de representação de interesses - ou, usando um rótulo mais maldito, de “lobby”, os lobistas - estão tentando usar outros títulos, outros rótulos, já que o de lobista, mesmo nos Estados Unidos, não é muito engrandecedor. Então, usa-se, cada vez mais, em inglês, diretamente, sem tradução, o termo “advocacy” para o “lobby”. Outro dia, uma aluna me perguntou qual a diferença entre “lobby” e “advocacy”, e respondi que era muito simples, pois “lobby” era o que ela fazia, e “advocacy”, o que eu fazia. Clientelismo nos olhos dos outros é refresco, ou seja, as minhas demandas são sempre puras e ideológicas enquanto as dos outros são clientelismo. Ora, essa é a própria vitalidade da relação representante-representado. Muito obrigado. O Sr. Presidente - Vamos encerrar o painel desta manhã passando a palavra aos expositores, para as suas considerações finais.